Encontrar o gênio da lâmpada é tarefa difícil hoje em dia. Esqueça o modelito “mil e uma noites”. O gênio adaptou-se à vida moderna, trocou de visual e residência. Após séculos engarrafado, hoje vive num apartamento espaçoso, tem carro importado, Ipod e internet banda larga. Tudo isso graças a uma liminar da justiça que lhe garante o direito de ir e vir. Previsivelmente, o Sindicato dos Amos entrou com recurso, mas tem perdido em todas as instâncias.
Na qualidade de mulher e jornalista (isto é, bisbilhoteira por natureza e profissão), estive no encalço do gênio durante algumas semanas, ansiosa por uma entrevista ou pela satisfação de três desejos. Ele escolhia um DVD para alugar quando parei a seu lado. Espichei-me e li o título do DVD que ele havia tirado da prateleira: Um grito de liberdade.
– É tão óbvio, não? – ele perguntou-me.
– Óbvio? – repeti, surpresa.
– Sim. No meu caso…
Eu estava confusa, daí a mudez, tão atípica de mim.
– Mas Aladin teria sido de uma obviedade ainda maior, não acha? – continuou ele, sorrindo.
– Muito maior… imperdoável – respondi, constrangida.
– Achou mesmo que eu não perceberia?
– Perceberia o quê?
– Que você está me seguindo.
– Oh… Bem… achei que você era um gênio, não um sensitivo.
– Gênios têm muitas capacidades. Vai colocar isso na sua matéria?
– Não escreverei nada que você não queira…
– Assim começa mal…
– O quê?
– Nossa amizade.
– Amizade? Se isso for uma cantada, é das piores. Você não pode dizer a uma garota que quer sua amizade quando na verdade quer sair com ela, entendeu?
– Sério? – Ele pareceu realmente embaraçado. Juro que corou.
– Sério – garanti.
– Pôxa, eu nunca fui muito bom nisso. Não tinha tempo de praticar. Estava sempre a serviço de alguém. Agora que sou livre, tenho dificuldade com certas situações… se é que você me entende.
– Paquerar, por exemplo? – sugeri.
– Sim, é tão difícil! Mulheres são códigos ambulantes… A linguagem de vocês é muito complexa para alguém ingênuo como eu… Tudo são sinais, sutilezas…
– Você se acostuma. Não entende, mas se acostuma.
– Obrigado pelo encorajamento, mas sinto que preciso de um treinamento intensivo. A prima Jeanie é a única mulher com quem convivo, e não é muito certa… entende? Outro dia apareceu com uns peitos do tamanho de jacas e começou a namorar um lutador de jiu-jitsu com orelha de couve-flor.
– Essa não é a Jeanie, seu bobo, é a Feiticeira!
– Mas a Feiticeira não era casada com o pai da Tábata?
– Pobrezinho, que confusão!
– Você é jornalista, é bem informada… Poderia me ajudar a entender este mundo moderno.
– Com o maior prazer… Você tem tempo agora?
– Sim, estou em horário de almoço.
– É mesmo? Não sabia que gênios almoçavam.
– É um direito que me assiste. Também sou um trabalhador!
– Que interessante! Você cumpre uma jornada de trabalho?
– Certamente. No passado, os gênios atendiam pedidos a qualquer hora. Nosso expediente não tinha fim. Com o crescimento populacional, o volume de pedidos aumentou muito, como você pode imaginar. O Sindicato Genioso reivindicou uma jornada justa, e conseguiu. Não vivo mais naquelas condições subgênicas… digo, subumanas… Agora tenho horários definidos para exercer minhas funções e troquei a lâmpada por um bom apartamento, com muito espaço para me alongar.
– Uma vez que o método de esfregar a garrafa tornou-se obsoleto, como você é acionado hoje em dia?
– Se alguém me reconhecer e exigir os três desejos, sou obrigado a atender. Se descobrirem o meu nome e me chamarem, também. Mas só das oito às cinco, com intervalo para almoço do meio-dia à uma.
Empolguei-me:
– Então tenho direito?
Ele suspirou, derrotado:
– É só exigir.
– Ótimo… Mas vamos deixar para daqui a pouco. Tenho outras perguntas. Como as pessoas conseguem reconhecê-lo? Você me parece bem normal.
O gênio fez cara de menino maroto.
– Às vezes esqueço que devo me comportar como vocês… Sabe como é… Uma flutuadinha discreta para pegar um produto na prateleira mais alta do supermercado… A aversão a garrafas… Um “sim, amo” que escapa vez por outra… Por falar nisso, como você me descobriu?
– Uma fonte.
– Qual? Dos desejos? Da juventude?
Eu ri. Apontei o DVD que ele revirava nas mãos, pensativo.
– Vai levar esse mesmo? – perguntei. – Se quiser umas dicas…
– Você me ajudaria a fazer minha declaração de renda? – ele perguntou de chofre.
– Declaração? Mas você é um gênio! Por que tem que declarar renda?
– Agora que saí da ilegalidade, tenho de seguir as leis deste mundo mortal…
– Será um prazer lhe ensinar, mas agora quero aqueles três desejos.
Ele recolocou o DVD na prateleira, cruzou os braços sobre o peito na posição clássica e declarou:
– Pode mandar.
Mordi os lábios, cocei a cabeça, pensei, pensei, pensei. Como escolher entre milhares de desejos?
– Quero ser feliz – pedi malandramente.
– No mundo de hoje é necessário ser objetiva, minha cara – censurou ele.
– Mas fui direta e generalista, o que é uma exigência da globalização – argumentei.
– Nã nã nã nã nã. Vai ter que reformular.
– Está bem. Quero que meus cabelos fiquem liiiiindos! Lisos, compridos e brilhantes!
Ele estalou os dedos. No mesmo instante, pimba! Uma deslumbrante cabeleira de índia substituiu-me os cabelos secos e rebeldes.
– Maravilhoso! – exclamei, acariciando minhas novas madeixas.
– Faltam dois – avisou o gênio, um tanto entediado. Quantas vezes devia ter visto aquilo em séculos de carreira?
– Corpinho de violão! – decretei, como He-Man declarando ter a força.
Estalar de dedos… Pimba de novo! Peitões, cinturinha, bundão! Eu era A gostosa!
– Hi-hi!!! Já era, Juliana Paes! – gritei, alucinada, pulando sem parar e fazendo os peitos balançarem gloriosamente.
– Sua criatividade é impressionante – comentou ele, com ar cansado. – Vamos ao último.
– Quero encontrar minha alma gêmea agora!
Ele fez que sim com a cabeça. Estalou os dedos. Nada aconteceu. Dessa vez não teve “pimba”.
– Ih, será que perdi meus poderes? – ele indagou, perplexo, estalando os dedos freneticamente. Começaram a pipocar chocalhos, relógios, sapatos e toda sorte de coisas, mas nada de aparecer minha cara-metade.
Então, vi a luz.
– Você não entendeu, né? – perguntei, aproximando-me e segurando as mãos dele para obrigá-lo a parar com o estalar de dedos.
– Não entendi o quê?
O gênio ganhara alguém para satisfazer seus desejos. E não só três.