De outro planeta

Dezembro 9, 2009

Você adoraria se enturmar, se sentir acolhido, compartilhar, confraternizar. Mas você não entende bem os costumes, a língua, os valores, a ética desse povo.

Tem boa vontade e tolerância, porém a falta de entendimento parece intransponível. Quando se expressa, sofre deboche e até violência. Poucos argumentam com educação. Esse povo, em sua maioria, desconhece a gentileza. Parece que se sente constantemente ameaçado, pois tudo é motivo para reagir com agressividade – seja em sua manifestação chula e irracional, seja numa forma falsamente polida, por meio da ironia e da desqualificação do “oponente”.

E nenhuma lógica é capaz de penetrar os escudos da tradição, da religião, do costume, do ego, da presunção.

Como resultado, você quer se recolher, se retirar, se isolar.

Mas não pode. Você depende – física e psicologicamente – dos outros. Mesmo que sejam estrangeiros, mesmo que sejam tão diferentes de você.

Mesmo que você seja de outro planeta.

Ter uma personalidade esquizoide seria uma bênção. Não gostar de gente, não querer sua proximidade, não querer dividir nada. Mas você não é esquizoide, é no máximo esquivo. O esquivo quer socialiazar, porém esbarra na própria timidez. O pior é quando transpõe o muro da introspecção e do medo, se expõe, e é recompensado com grosseria e ofensas. Aí se recolhe, jura que nunca mais, que acabou, que agora é um ermitão etc.

Só para esquecer e tentar de novo. Infinitamente, até o dia em que parte para o reino do silêncio irremediável.


Autoerotismo

Outubro 25, 2009

Primeiro veio o som, batidas ritmadas no chão oco acarpetado, por baixo do qual corria a fiação elétrica do andar. O carpete estava sempre descolando, enrolando nas bordas como um livro cheio de orelhas, mas as botas de Elisabete evitaram habilmente as armadilhas. Dez centímetros acima de sua genética, ela andava com a segurança de décadas de salto.

Ao longo do corredor, as baias cinzentas cochichavam de pasmo e incredulidade ante as botas de flores vermelhas, roxas e azuis sobre um fundo branco. Era como se o fabricante tivesse usado um pedaço de toalha de mesa para revesti-las.

As calças de Elisabete eram brancas, modelando um quadril largo e expansivo. A blusa, azul-bebê justinha, cheia de babados, decote em V onde se aninhava um pingente em estilo egípcio sobre o colo bronzeado. Os seios eram pequenos e ainda altaneiros para uma mulher de quarenta anos.

A cabeleira escura e levemente ondulada, de um castanho queimado de sol, serpenteava no ritmo das botas. Olhos pequenos e desenhados pelo lápis davam-lhe um ar de cabocla estranho àquele ambiente refrigerado, sem luz natural. Ela trazia no rosto um sol moreno, nas ancas uma cadência morna, nos lábios vermelhos um pecado capital.

Naquele primeiro dia de novo cargo, Elisabete avançava pelo corredor consciente da consternação coletiva ante a gerente de outra unidade que iria substituir o diretor, vítima de derrame. O problema não estava em ser mulher ou quarentona, estava em se recusar a imitar os homens. Porque ela amava os clichês da feminilidade: o cabelão, a maquiagem pródiga, a roupa sensual. A cada respiração, Elisabete experimentava uma onda de regozijo cujo epicentro era o baixo-ventre. Do útero maduro se propagava uma plenitude que Elisabete não tivera aos vinte anos. Aos quarenta, finalmente era fêmea. E isso não tinha a ver com cópula, sem a qual ela podia viver tranquila por meses. Tinha a ver com gozo. Pulsão de vida. Afeto pelas estrias, pelos pés chatos, pelas bochechas em início de flacidez. Simpatia pelas esquisitices, pelas mesquinharias, pelos medos, pelas neuras.

A alegria autoerótica de quem aprende a amar sua inteireza, sua beleza e sua sombra.


A queda

Outubro 21, 2009

Esta semana me peguei questionando a lógica de nossos ancestrais ao abdicarem de sua condição de quadrúpedes. Por que ser bípede? Só para ficar com as mãos livres a fim de tirar meleca do nariz? Muito mais seguro é andar de quatro, bem pertinho do chão. Porque quanto mais rente ao chão, menor a possibilidade de se estabacar.

É, eu caí. Coisa que não fazia desde os onze anos de idade. Caí com os quatro membros no chão, o rosto de lado, a dignidade no meio-fio.

Não sei como aconteceu. Foi rápido, mas lento o bastante para que eu refletisse durante a queda. Não estou caindo, dizia para mim mesma. Estou tropeçando. Daqui a pouco vou conseguir firmar um dos pés. Provavelmente sairei catando cavaco, mas vou parar e me aprumar, perfeitamente bípede e equilibrada.

Mas o chão se aproximava implacavelmente, e logo eu estava com a bochecha no cimento.

Plateia, não sei se tive. Havia pessoas por ali, mas longe. Era uma praça, dessas de bairro, com o mato crescendo como Deus quer. Muitos metros adiante, um farol, e depois do farol um ponto de ônibus. Do outro lado da calçada, perto de mim, uma oficina mecânica, porém não tive coragem de olhar.

Levantei devagar, joelho e mãos raladas, cérebro confuso. A força da gravidade parecia ter duplicado; foi difícil retornar à posição ereta.

Então eu caíra. Era isso. Acontecera comigo. Acontece com as pessoas todos os dias, mas a gente não pensa que vai passar por isso.

O mundo ainda era um lugar ilógico quando recomecei a andar, mancando. A pressão caiu, vieram a tontura e a náusea. Tal reação por causa de uma queda à toa? Psicológico, com certeza. O choque de se saber tão vulnerável, sem domínio do corpo, traída pelo chão irregular, pelos pés distraídos.

Mas passou. Apesar da dor, penso comigo que uma queda de vez em quando é boa para pôr tudo em seu lugar. Achar que temos os pés firmes sobre a terra é ilusão. Um dia estarão caídos lado a lado em caráter permanente.

Mas até lá acho que preferiria andar de quatro.


Sem conserto

Outubro 20, 2009

Não há magia no mundo. Pelo menos, não no mundo dela.

Nas revistas, donas de casa que perderam 30 quilos em dois meses, recuperaram a autoestima e salvaram seus casamentos.

Nos livros, pessoas que viajaram, comeram, rezaram, amaram – e mudaram para sempre.

Na TV, famílias simples que tiveram o casebre transformado em residência.

Magia por todo lado. Golpes de sorte, intervenções divinas, epifanias.

Mas não na vida dela.

A psicanálise havia falhado. A fluoxetina havia falhado. Também a terapia de vidas passadas, a promoção, o apartamento novo.

Restava uma última fronteira. Filhos.

Todos dizem: é mágico, transformador, divisor de águas. A mulher muda, o homem muda. Tudo aparece sob nova perspectiva.

Ela queria tentar.

Mas tinha medo.

Lembrava-se do amigo que perdera o irmão para o alcoolismo. Ele se culpava. Nutria e acarinhava a culpa com meticuloso cuidado. Porque sentir-se culpado era sentir que poderia ter mudado o destino. Se admitisse que o irmão estava perdido desde sempre, admitiria a impotência. E a impotência dilacera. Muito melhor a culpa.

Portanto, não teria filhos. Antes o prazer doentio de nunca saber a verdade. Poder dizer: se eu tivesse sido mãe, minha vida teria sentido, mas não fui, me sinto culpada. Porque é melhor do que dizer: meu filho não me salvou. Ele nunca poderia ter me salvado. Porque eu já estava condenada na gênese.


A fama por trás

Outubro 20, 2009

Ela havia jurado que seria loura até morrer. Que, à maneira de Marilyn Monroe e Madonna, sua vida começara quando ela tingira o cabelo. Que sua verdadeira personalidade era loura. Nascera morena por um acaso; a tintura era apenas uma correção ao trabalho da natureza.

De fato, a loirice lhe rendera bons momentos. Foram anos intensos, que ela acreditara eternos. Diziam-lhe que não duraria, mas como aceitar que algo tão bom pudesse ter fim? Agora, olhando-se no espelho, não entendia como tudo pudera mudar. Afinal, ela ainda era a mesma. Loura, em forma, siliconada, voluptuosa. Não abandonara a rotina de exercícios, ainda que tivesse trocado o personal trainer por uma academia barata na esquina de casa. Precisava manter o corpo que a tornara famosa, pois a oportunidade de retomar seu lugar existia. Não poderia continuar vivendo se não acreditasse nisso.

Dera um mau jeito no joelho na última aula de step. Isso nunca teria acontecido se ela ainda estivesse sob a supervisão do personal. Mas infelizmente ninguém trabalhava de graça, e ele desdenhara sua oferta de diversões carnais em troca da assessoria atlética.

O joelho vinha dando sinais de melhora, graças à bolsa de água quente, mas as finanças estavam em declínio. Ela vendera carro, roupas, jóias – tudo de que podia se desfazer sem rebaixar demais o padrão de vida –, mas o dinheiro assim obtido jamais era reposto, apenas consumido. Pudera: ela não trabalhava mais. Não que não quisesse. Faria, de bom grado, quantos ensaios eróticos lhe oferecessem, mas já havia aparecido nas páginas de uma revista masculina, e ninguém parecia interessado num repeteco. “Ex-apresentadora mostra tudo” já não era um chamariz para o público. Desde então, outras mulheres a haviam sobrepujado no imaginário descartável do público.

O ensaio fotográfico tivera boas vendas. Não posara para a revista masculina mais badalada, aquela das fotos “artísticas”. Eles não estavam interessados. Fugiam de tudo o que cheirasse a decadência. Então, ela assinara contrato com outra revista, prometendo mostrar-se quase do avesso. Expusera as “partes” diante de uma equipe fria e competente, de homens acostumados ao espetáculo diário de pernas escancaradas. Com isso, seu constrangimento fora menor do que esperava, e ela ganhara elogios por sua desinibição. Ganhara também um bom dinheiro. Infelizmente, gastara tudo com roupas, sapatos, presentes para si mesma e para os amigos. Comprara até um cavalo puro-sangue só para sair nas capas de revista ao lado do belo animal. O fato de que ela não sabia montar era de menor importância.

Aceitara o convite de algumas boates para simplesmente exibir-se, em seu esplendor siliconado, durante algumas noites. Bastava circular em roupas sumárias, dar autógrafos e ser agradável. Rendia um dinheiro razoável. Com o passar dos meses, porém, seu nome já não era garantia de casa cheia. Os convites das boates continuaram a chegar, mas a proposta mudara. “Dança sensual” e “jantar com executivos” eram alguns dos nomes eufemísticos para striptease e programa, se não fosse muito estúpida para compreender.

Resistia a tais convites porque tinha esperança. Não queria se enlamear a ponto de não poder voltar atrás. Sabia, contudo, que já ultrapassara a fronteira. A trajetória descendente, de apresentadora de TV a peladona de borracharia, nunca poderia ser apagada. Embora soubesse disso, achava que se evitasse fazer programas ainda teria alguma chance. Não era uma estratégia, era uma crença mística, uma barganha com Deus. Contudo, aparentemente o negócio ainda não despertara o interesse do Criador.

O apartamento de três quartos num bairro nobre tornara-se um peso. O condomínio era alto até mesmo para quem tinha renda, por isso ela cogitava vender o imóvel e comprar algo mais modesto, um estúdio, como chamavam agora as quitinetes. Apenas para inteirar-se do mercado, visitara alguns, achando todos muito caros. O único compatível com sua nova situação financeira ficava de frente para um cemitério. Ela não se imaginava olhando diariamente para as lápides, pensando nos sonhos, vitórias e decepções ali enterrados. Era de extremo mau gosto recordar todos os dias a própria finitude. Bastava-lhe a decadência.

Pois não podia ter outro nome, exceto decadência, ver-se obrigada a tomar ônibus ou metrô para se deslocar pela cidade. Estava acostumada a boates lotadas, longas filas de espera por uma mesa nos restaurantes, mas não ao feroz combate que se tratava no metrô, ao empurra-empurra para entrar no vagão, à corrida por assentos vazios.

Ao queixar-se de toda essa situação com um amigo, ele tinha-lhe sugerido que escrevesse um livro.

– Sobre o quê?

– Sei lá… Algo como Por trás da fama ou A fama por trás. Você não tem nada picante para relatar? Não transou com nenhum famoso?

– Teve aquele jogador de futebol. Mas ele caiu em desgraça e sumiu. Consta que virou pastor evangélico.

– Humm… Melhor não mexer com esse povo de igreja.

Agora, diante do espelho, armada de apetrechos para tingir os cabelos, sentia-se paralisada.

Tinha 28 anos e sentia-se muito mais velha. A imagem refletida começava a pesar. Era o passado grudado nela, em seus cabelos, nos seios túrgidos e empinados.

Naquela tarde, ao sair para comprar cigarros, bebidas, pão e iogurte, um casal a havia reconhecido. Não a abordaram, mas olharam-na demoradamente, aos cochichos. Pela primeira vez na vida, ela ansiara por não ser reconhecida. Sempre havia quem se lembrasse do programa de TV, do disco estúpido que ela gravara, do namoro com o jogador de futebol, do ensaio fotográfico. A maioria não se aproximava, mas um ou outro puxava conversa, dizia-se fã. Mesmo esses, porém, pareciam falsos. Ou constrangidos. Passar despercebida seria menos humilhante, e ela começava a querer que fosse assim.

Pisou no pedal da lata de lixo e jogou fora a tintura. As raízes escuras ainda precisariam de muitos meses para vencer o louro-intenso-platinado, por isso ela pegou a bolsa e saiu em busca do humilde castanho-escuro.


O gênio e os desejos

Outubro 20, 2009

Encontrar o gênio da lâmpada é tarefa difícil hoje em dia. Esqueça o modelito “mil e uma noites”. O gênio adaptou-se à vida moderna, trocou de visual e residência. Após séculos engarrafado, hoje vive num apartamento espaçoso, tem carro importado, Ipod e internet banda larga. Tudo isso graças a uma liminar da justiça que lhe garante o direito de ir e vir. Previsivelmente, o Sindicato dos Amos entrou com recurso, mas tem perdido em todas as instâncias.

Na qualidade de mulher e jornalista (isto é, bisbilhoteira por natureza e profissão), estive no encalço do gênio durante algumas semanas, ansiosa por uma entrevista ou pela satisfação de três desejos. Ele escolhia um DVD para alugar quando parei a seu lado. Espichei-me e li o título do DVD que ele havia tirado da prateleira: Um grito de liberdade.

– É tão óbvio, não? – ele perguntou-me.

– Óbvio? – repeti, surpresa.

– Sim. No meu caso…

Eu estava confusa, daí a mudez, tão atípica de mim.

– Mas Aladin teria sido de uma obviedade ainda maior, não acha? – continuou ele, sorrindo.

– Muito maior… imperdoável – respondi, constrangida.

– Achou mesmo que eu não perceberia?

– Perceberia o quê?

– Que você está me seguindo.

– Oh… Bem… achei que você era um gênio, não um sensitivo.

– Gênios têm muitas capacidades. Vai colocar isso na sua matéria?

– Não escreverei nada que você não queira…

– Assim começa mal…

– O quê?

– Nossa amizade.

– Amizade? Se isso for uma cantada, é das piores. Você não pode dizer a uma garota que quer sua amizade quando na verdade quer sair com ela, entendeu?

– Sério? – Ele pareceu realmente embaraçado. Juro que corou.

– Sério – garanti.

– Pôxa, eu nunca fui muito bom nisso. Não tinha tempo de praticar. Estava sempre a serviço de alguém. Agora que sou livre, tenho dificuldade com certas situações… se é que você me entende.

– Paquerar, por exemplo? – sugeri.

– Sim, é tão difícil! Mulheres são códigos ambulantes… A linguagem de vocês é muito complexa para alguém ingênuo como eu… Tudo são sinais, sutilezas…

– Você se acostuma. Não entende, mas se acostuma.

– Obrigado pelo encorajamento, mas sinto que preciso de um treinamento intensivo. A prima Jeanie é a única mulher com quem convivo, e não é muito certa… entende? Outro dia apareceu com uns peitos do tamanho de jacas e começou a namorar um lutador de jiu-jitsu com orelha de couve-flor.

– Essa não é a Jeanie, seu bobo, é a Feiticeira!

– Mas a Feiticeira não era casada com o pai da Tábata?

– Pobrezinho, que confusão!

– Você é jornalista, é bem informada… Poderia me ajudar a entender este mundo moderno.

– Com o maior prazer… Você tem tempo agora?

– Sim, estou em horário de almoço.

– É mesmo? Não sabia que gênios almoçavam.

– É um direito que me assiste. Também sou um trabalhador!

– Que interessante! Você cumpre uma jornada de trabalho?

– Certamente. No passado, os gênios atendiam pedidos a qualquer hora. Nosso expediente não tinha fim. Com o crescimento populacional, o volume de pedidos aumentou muito, como você pode imaginar. O Sindicato Genioso reivindicou uma jornada justa, e conseguiu. Não vivo mais naquelas condições subgênicas… digo, subumanas… Agora tenho horários definidos para exercer minhas funções e troquei a lâmpada por um bom apartamento, com muito espaço para me alongar.

– Uma vez que o método de esfregar a garrafa tornou-se obsoleto, como você é acionado hoje em dia?

– Se alguém me reconhecer e exigir os três desejos, sou obrigado a atender. Se descobrirem o meu nome e me chamarem, também. Mas só das oito às cinco, com intervalo para almoço do meio-dia à uma.

Empolguei-me:

– Então tenho direito?

Ele suspirou, derrotado:

– É só exigir.

– Ótimo… Mas vamos deixar para daqui a pouco. Tenho outras perguntas. Como as pessoas conseguem reconhecê-lo? Você me parece bem normal.

O gênio fez cara de menino maroto.

– Às vezes esqueço que devo me comportar como vocês… Sabe como é… Uma flutuadinha discreta para pegar um produto na prateleira mais alta do supermercado… A aversão a garrafas… Um “sim, amo” que escapa vez por outra… Por falar nisso, como você me descobriu?

– Uma fonte.

– Qual? Dos desejos? Da juventude?

Eu ri. Apontei o DVD que ele revirava nas mãos, pensativo.

– Vai levar esse mesmo? – perguntei. – Se quiser umas dicas…

– Você me ajudaria a fazer minha declaração de renda? – ele perguntou de chofre.

– Declaração? Mas você é um gênio! Por que tem que declarar renda?

– Agora que saí da ilegalidade, tenho de seguir as leis deste mundo mortal…

– Será um prazer lhe ensinar, mas agora quero aqueles três desejos.

Ele recolocou o DVD na prateleira, cruzou os braços sobre o peito na posição clássica e declarou:

– Pode mandar.

Mordi os lábios, cocei a cabeça, pensei, pensei, pensei. Como escolher entre milhares de desejos?

– Quero ser feliz – pedi malandramente.

– No mundo de hoje é necessário ser objetiva, minha cara – censurou ele.

– Mas fui direta e generalista, o que é uma exigência da globalização – argumentei.

– Nã nã nã nã nã. Vai ter que reformular.

– Está bem. Quero que meus cabelos fiquem liiiiindos! Lisos, compridos e brilhantes!

Ele estalou os dedos. No mesmo instante, pimba! Uma deslumbrante cabeleira de índia substituiu-me os cabelos secos e rebeldes.

– Maravilhoso! – exclamei, acariciando minhas novas madeixas.

– Faltam dois – avisou o gênio, um tanto entediado. Quantas vezes devia ter visto aquilo em séculos de carreira?

– Corpinho de violão! – decretei, como He-Man declarando ter a força.

Estalar de dedos… Pimba de novo! Peitões, cinturinha, bundão! Eu era A gostosa!

– Hi-hi!!! Já era, Juliana Paes! – gritei, alucinada, pulando sem parar e fazendo os peitos balançarem gloriosamente.

– Sua criatividade é impressionante – comentou ele, com ar cansado. – Vamos ao último.

– Quero encontrar minha alma gêmea agora!

Ele fez que sim com a cabeça. Estalou os dedos. Nada aconteceu. Dessa vez não teve “pimba”.

– Ih, será que perdi meus poderes? – ele indagou, perplexo, estalando os dedos freneticamente. Começaram a pipocar chocalhos, relógios, sapatos e toda sorte de coisas, mas nada de aparecer minha cara-metade.

Então, vi a luz.

– Você não entendeu, né? – perguntei, aproximando-me e segurando as mãos dele para obrigá-lo a parar com o estalar de dedos.

– Não entendi o quê?

O gênio ganhara alguém para satisfazer seus desejos. E não só três.


Monstra

Outubro 20, 2009

Tal como o homem que dormiu humano e acordou inseto, ela dormiu pamonha e acordou monstra.

Não estava verde como o Hulk nem ganhara presas de babuíno, mas sabia que, lá dentro, faltava algo. O censor, o piloto, o mediador, o superego – qualquer que fosse o nome – havia ido embora e deixado o lugar vago.

“A cada dia vou cada vez melhor em todos os sentidos.”

Era a letra dela, mas o bilhetinho colado no espelho pareceu-lhe estranho, como se o lesse pela primeira vez. Terminou no ralo da pia, aos pedaços.

Tomou café, alimentou o gato, vestiu-se, acordou o marido e saiu à hora de sempre.

No metrô lotado, os odores humanos invadiram-na: hálito matinal de quem saía de casa sem café, flatulência de quem saía de casa com muito café.

– Você pode bocejar mais para lá? – pediu ao rapaz de pé a seu lado. – Não costumo tolerar isso nem do meu marido. Comigo não tem essa de beijo na boca antes de escovar os dentes.

Para sua surpresa e deleite, o moço pediu desculpas e passou a tapar a boca ao bocejar.

Mas uma viagem de 20 minutos era longa demais para que uma multidão se comportasse feito gente. Logo ela sentiu que suas costas estavam atrapalhando a mochila de uma adolescente.

– Florzinha, você pode tirar sua mochila das costas? – sugeriu, melíflua.

– Hããã??? – A garota parecia despertar lentamente. Bocejou, entediada, e fez um gesto de desprezo. – Sai fora, tia.

A monstra, doravante M., pousou a mão pesadamente sobre o ombro da adolescente e explicou com didatismo:

– Meu anjo, a lógica é simples. Você pode tirar sua mochila das costas, mas eu não posso tirar minhas costas! Portanto – olhar cortante e um aperto ameaçador no ombro –, tire.

A garota esboçou um protesto, porém desistiu. Em silêncio emburrado, tirou a mochila das costas e a colocou no chão, entre as pernas.

M. deu-lhe um sorriso faiscante, o poder circulando por seu corpo como uma corrente elétrica.

Na rua, um rapazinho com a camiseta laranja-estonteante de uma empresa de crédito tentou pará-la, fez até menção de tocá-la, mas M. mostrou-lhe a palma da mão num gesto que o paralisou.

– Meu querido filhote de agiota, vamos combinar uma coisa: só fale comigo se for para me dar dinheiro. Dar, não emprestar.

“Acho que vou mandar fazer uma camiseta com esses dizeres”, pensou, satisfeita, deixando o garoto para trás.

No trabalho, passou a primeira hora lendo e-mails e aproveitou para proibir alguns amigos de lhe mandar arquivos de Power Point ensinando o valor da vida, da amizade, do amor, do pensamento positivo. De quebra, se orkuticidou.

Ao meio-dia, almoçou correndo para poder assistir a uma palestra motivacional no auditório. O palestrante era algum CEO formado em administração, marketing, psicologia, neurolinguística e reiki (ou talvez fosse massagem tailandesa, ela sempre confundia). Ele desfiou a ladainha sobre foco nos resultados e mentalizações afirmativas, a usual mistureba de autoajuda, estratégias corporativas e técnicas de RH.

M. tentou se conter, mas Jekyll nocaute Hyde e levantou a mãozinha para uma pergunta.

– Sim? – cantarolou, solícito, o orador.

– Espero total sinceridade – adiantou M., sorrindo lindamente. – Você não acha que, no que diz respeito ao trabalho, um bom plano de saúde, horários flexíveis e acesso ao You Tube seriam mais motivadores do que pensamento positivo?

O homem alisou a cabeleira retesada de gel e sorriu, embora os olhos não enrugassem nem um milímetro.

– Tudo é atitude, minha cara – disse ele. – Se você não buscar a motivação dentro de si, nenhum benefício da empresa será bom o bastante.

M. arregalou os olhos.

– Fico impressionada com a quantidade de coisas que podemos encontrar dentro de nós mesmos! Motivação, autoconfiança, Deus, colesterol…

O palestrante riu forçadamente, no que foi ajudado pela plateia. M. deu-se um cascudo – metaforicamente falando – e saiu de fininho antes de se tornar séria candidata ao seguro-desemprego.

Monstra, sim, mas não louca. Afinal, como viveria sem banda larga, TV a cabo e escova progressiva?


Mulheres enroladas

Outubro 20, 2009

Homem solteiro, bem empregado, bem-apessoado, bem resolvido, na faixa dos trinta, procura moça nas mesmas condições. Parece fácil, não? Com a escassez de homens héteros disponíveis, é claro que esse mancebo encontrará facilmente sua cara-metade. Mas não é isso o que acontece. Pergunte-lhe qual é o problema e ele responderá: “Todas as mulheres estão enroladas!”.

Muitas de nós protestarão: “Isso é mentira, não tenho ninguém, estou so-zi-nha!”. Tem certeza? Você pode dizer com absoluta segurança que é livre? Saiba que hoje em dia é muito difícil encontrar uma mulher solteira que não esteja enrolada de alguma forma.

O ex-namorado é um homem que recupera seus atrativos logo após a separação. As horríveis discussões tornam-se briguinhas saudáveis de casal; seus defeitos de caráter, antes intoleráveis, agora são manifestações compreensíveis de uma natureza humana falível; suas traições viram momentos de fraqueza; seu gênio de cão é apenas personalidade forte; o sexo egoísta e sem preliminares torna-se selvagem.

“Pôxa, mas não era uma droga?”, indagam os amigos ao ver-nos diante do telefone, os dedinhos coçando para discar o número do ex. “Talvez eu tenha sido muito inflexível”, respondemos, se fomos as autoras do pé na bunda. Se, no entanto, fomos dispensadas, nossa explicação para rastejar atrás do ex é perfeitamente lógica: “Ele só queria ficar um tempo sozinho, para repensar a relação, entende? Acho que três dias foi tempo suficiente”.

Nisso, passam-se os anos e o namoro intermitente prossegue, até que ele resolve se casar – com outra. Só então vem a constatação de que esse vai e volta roubou-nos um tempo precioso, durante o qual poderíamos ter encontrado alguém que valesse a pena. Isso se já não encontramos e descartamos, preferindo o sapato velho. Parece insensato? Mas muitas de nós interrompemos um novo e promissor namoro para nos reconciliarmos com o ex. Ou nem mesmo começamos outro relacionamento, deixando claro logo de saída que estamos presas a uma relação mal resolvida.

Acontece também de nosso rolo não ser com um ex-namorado, mas com um quase-namorado. Conhecemos um homem interessante num barzinho, ficamos. Dali a uma semana, ele nos liga, nos chama para sair, ficamos de novo. E de novo. E de novo. É namoro? Não! Só ficamos quando ele está com vontade (nós estamos sempre, é incrível) e nos contentamos com isso. Não o pressionamos para assumir compromisso, para dizer se é namoro ou amizade. Isso o assustaria. Então continuamos ficando, achando que, à medida que ele nos conhecer melhor, se apaixonará perdidamente, nos pedirá em namoro e, no devido tempo, em casamento. Se aparece um homem interessado em compromisso, em apresentar-nos para os pais e para os amigos, revelamos nossa condição de enrolada assumida.

Não somos burras: agimos burramente. Afundamos na ilusão e no autoengano, e deixamos de enxergar o óbvio: ex-namorados e quase-namorados são atraso de vida. Casos de reconciliações bem-sucedidas e de “ficadas” que viraram namoro sério são reais, claro, porém menos frequentes do que imaginamos. E enquanto estivermos enroladas, permaneceremos fechadas à possibilidade de um novo relacionamento.

Dê um basta aos rolos! Quanto àquele número de telefone que não sai da sua cabeça, empregue seus dedinhos em algo mais prazeroso.


Mulher-abacaxi

Outubro 20, 2009

Frases de para-choque de caminhão costumam ser machistas, racistas, imbecis… e muito engraçadas. Umas poucas chegam a ser sábias, verdadeiros insights sobre a psique humana. Outro dia deparei com esta: “Tem mulher que é como abacaxi – gostosa de comer, mas difícil de descascar”.

Nunca houve uma definição tão sintética e acurada da sexualidade feminina. Esqueça as desgraçadas que gozam ao menor estímulo, essas que têm orgasmos durante um espirro. São raridades, aberrações. A maioria das mulheres não “liga” de imediato, feito eletrodoméstico. Estamos mais para carro a álcool no inverno.

Quantas podem afirmar, com sinceridade, que conhecem seu clitóris? O tal botãozinho parece brincar de esconde-esconde. As coordenadas para encontrá-lo e tocá-lo do modo correto são um bocado desencontradas – mais para cima, mais para o lado, em diagonal, etc. Maldito clitóris itinerante. Além de fujão, esse pedacinho de carne é um bocado temperamental. Após algumas semanas de orgasmos fantásticos, segue-se um período de hibernação. Nada (ou muito pouco) acontece.

E a excitação? Às vezes exige uma verdadeira disciplina mental, coisa de iogue. Se o seu vizinho puser para tocar a “Eguinha Pocotó” no último volume, adeus lubrificação. O mesmo vale para campainha do telefone, caminhão de botijão de gás e “pamonha, pamonha, pamonha”. Lá vai o pobre homem recomeçar todo o trabalho.

Nem vou mencionar excentricidades como ponto G e orgasmos múltiplos: isso é só para seres altamente evoluídos. Sexo tântrico? Ejaculação feminina? Francamente, você deveria ler menos a Nova. Na verdade, os meios de comunicação estão coalhados de mitos sobre a sexualidade. Pegue uma revistinha adocicada de banca de jornal, como Júlia e Sabrina. A mocinha sempre tem prazer na primeira vez. Dói um pouquinho, sangra um pinguinho, e dali a pouco ela está urrando de prazer. Essas heroínas jamais integrarão o universo de mulheres que só conhecem o gozo muitos anos após o defloramento. Ah!, e o casal sempre goza junto. Uma beleza. O mais incrível é que tais histórias são escritas por mulheres.

Outro mito é o de que a mulher tem fantasias sexuais predominantemente românticas. “Fazer amor na praia sob o luar.” Não acredite. Mulher de carne e osso gosta de sacanagem e sonha com cenas menos idílicas. Algemas. Tapas. Novas posições. Brinquedinhos. Enfim, taras não faltam. Falta coragem.

Livros, filmes e novelas também dão a entender que toda mulher normal atinge o orgasmo com a penetração. Somente a mulher-abacaxi, essa chata, precisa de estímulo no clitóris. Os homens menos pacientes talvez prefiram procurar uma mulher-maçã (pronta para comer). O problema é que, na vida real, a espécie abacaxi parece ser mais abundante. Aquelas que gozam na primeira arremetida representam uma parcela ínfima da população feminina, especialmente se tirarmos desse bolo as que costumam fingir…

Como se vê, o gozo da fêmea humana requer trabalho árduo e cuidadoso, tal como descascar um abacaxi. Isso não significa que a sexualidade masculina seja mais fácil. Basta pensar na ereção, tão caprichosa que faz o moçoilo ir direto ao que interessa, com medo de um vexame. É o “homem-batata frita”: coma antes que murche. Eis uma boa frase para o repertório de nossas caminhoneiras.