A fama por trás

Ela havia jurado que seria loura até morrer. Que, à maneira de Marilyn Monroe e Madonna, sua vida começara quando ela tingira o cabelo. Que sua verdadeira personalidade era loura. Nascera morena por um acaso; a tintura era apenas uma correção ao trabalho da natureza.

De fato, a loirice lhe rendera bons momentos. Foram anos intensos, que ela acreditara eternos. Diziam-lhe que não duraria, mas como aceitar que algo tão bom pudesse ter fim? Agora, olhando-se no espelho, não entendia como tudo pudera mudar. Afinal, ela ainda era a mesma. Loura, em forma, siliconada, voluptuosa. Não abandonara a rotina de exercícios, ainda que tivesse trocado o personal trainer por uma academia barata na esquina de casa. Precisava manter o corpo que a tornara famosa, pois a oportunidade de retomar seu lugar existia. Não poderia continuar vivendo se não acreditasse nisso.

Dera um mau jeito no joelho na última aula de step. Isso nunca teria acontecido se ela ainda estivesse sob a supervisão do personal. Mas infelizmente ninguém trabalhava de graça, e ele desdenhara sua oferta de diversões carnais em troca da assessoria atlética.

O joelho vinha dando sinais de melhora, graças à bolsa de água quente, mas as finanças estavam em declínio. Ela vendera carro, roupas, jóias – tudo de que podia se desfazer sem rebaixar demais o padrão de vida –, mas o dinheiro assim obtido jamais era reposto, apenas consumido. Pudera: ela não trabalhava mais. Não que não quisesse. Faria, de bom grado, quantos ensaios eróticos lhe oferecessem, mas já havia aparecido nas páginas de uma revista masculina, e ninguém parecia interessado num repeteco. “Ex-apresentadora mostra tudo” já não era um chamariz para o público. Desde então, outras mulheres a haviam sobrepujado no imaginário descartável do público.

O ensaio fotográfico tivera boas vendas. Não posara para a revista masculina mais badalada, aquela das fotos “artísticas”. Eles não estavam interessados. Fugiam de tudo o que cheirasse a decadência. Então, ela assinara contrato com outra revista, prometendo mostrar-se quase do avesso. Expusera as “partes” diante de uma equipe fria e competente, de homens acostumados ao espetáculo diário de pernas escancaradas. Com isso, seu constrangimento fora menor do que esperava, e ela ganhara elogios por sua desinibição. Ganhara também um bom dinheiro. Infelizmente, gastara tudo com roupas, sapatos, presentes para si mesma e para os amigos. Comprara até um cavalo puro-sangue só para sair nas capas de revista ao lado do belo animal. O fato de que ela não sabia montar era de menor importância.

Aceitara o convite de algumas boates para simplesmente exibir-se, em seu esplendor siliconado, durante algumas noites. Bastava circular em roupas sumárias, dar autógrafos e ser agradável. Rendia um dinheiro razoável. Com o passar dos meses, porém, seu nome já não era garantia de casa cheia. Os convites das boates continuaram a chegar, mas a proposta mudara. “Dança sensual” e “jantar com executivos” eram alguns dos nomes eufemísticos para striptease e programa, se não fosse muito estúpida para compreender.

Resistia a tais convites porque tinha esperança. Não queria se enlamear a ponto de não poder voltar atrás. Sabia, contudo, que já ultrapassara a fronteira. A trajetória descendente, de apresentadora de TV a peladona de borracharia, nunca poderia ser apagada. Embora soubesse disso, achava que se evitasse fazer programas ainda teria alguma chance. Não era uma estratégia, era uma crença mística, uma barganha com Deus. Contudo, aparentemente o negócio ainda não despertara o interesse do Criador.

O apartamento de três quartos num bairro nobre tornara-se um peso. O condomínio era alto até mesmo para quem tinha renda, por isso ela cogitava vender o imóvel e comprar algo mais modesto, um estúdio, como chamavam agora as quitinetes. Apenas para inteirar-se do mercado, visitara alguns, achando todos muito caros. O único compatível com sua nova situação financeira ficava de frente para um cemitério. Ela não se imaginava olhando diariamente para as lápides, pensando nos sonhos, vitórias e decepções ali enterrados. Era de extremo mau gosto recordar todos os dias a própria finitude. Bastava-lhe a decadência.

Pois não podia ter outro nome, exceto decadência, ver-se obrigada a tomar ônibus ou metrô para se deslocar pela cidade. Estava acostumada a boates lotadas, longas filas de espera por uma mesa nos restaurantes, mas não ao feroz combate que se tratava no metrô, ao empurra-empurra para entrar no vagão, à corrida por assentos vazios.

Ao queixar-se de toda essa situação com um amigo, ele tinha-lhe sugerido que escrevesse um livro.

– Sobre o quê?

– Sei lá… Algo como Por trás da fama ou A fama por trás. Você não tem nada picante para relatar? Não transou com nenhum famoso?

– Teve aquele jogador de futebol. Mas ele caiu em desgraça e sumiu. Consta que virou pastor evangélico.

– Humm… Melhor não mexer com esse povo de igreja.

Agora, diante do espelho, armada de apetrechos para tingir os cabelos, sentia-se paralisada.

Tinha 28 anos e sentia-se muito mais velha. A imagem refletida começava a pesar. Era o passado grudado nela, em seus cabelos, nos seios túrgidos e empinados.

Naquela tarde, ao sair para comprar cigarros, bebidas, pão e iogurte, um casal a havia reconhecido. Não a abordaram, mas olharam-na demoradamente, aos cochichos. Pela primeira vez na vida, ela ansiara por não ser reconhecida. Sempre havia quem se lembrasse do programa de TV, do disco estúpido que ela gravara, do namoro com o jogador de futebol, do ensaio fotográfico. A maioria não se aproximava, mas um ou outro puxava conversa, dizia-se fã. Mesmo esses, porém, pareciam falsos. Ou constrangidos. Passar despercebida seria menos humilhante, e ela começava a querer que fosse assim.

Pisou no pedal da lata de lixo e jogou fora a tintura. As raízes escuras ainda precisariam de muitos meses para vencer o louro-intenso-platinado, por isso ela pegou a bolsa e saiu em busca do humilde castanho-escuro.

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