Não há magia no mundo. Pelo menos, não no mundo dela.
Nas revistas, donas de casa que perderam 30 quilos em dois meses, recuperaram a autoestima e salvaram seus casamentos.
Nos livros, pessoas que viajaram, comeram, rezaram, amaram – e mudaram para sempre.
Na TV, famílias simples que tiveram o casebre transformado em residência.
Magia por todo lado. Golpes de sorte, intervenções divinas, epifanias.
Mas não na vida dela.
A psicanálise havia falhado. A fluoxetina havia falhado. Também a terapia de vidas passadas, a promoção, o apartamento novo.
Restava uma última fronteira. Filhos.
Todos dizem: é mágico, transformador, divisor de águas. A mulher muda, o homem muda. Tudo aparece sob nova perspectiva.
Ela queria tentar.
Mas tinha medo.
Lembrava-se do amigo que perdera o irmão para o alcoolismo. Ele se culpava. Nutria e acarinhava a culpa com meticuloso cuidado. Porque sentir-se culpado era sentir que poderia ter mudado o destino. Se admitisse que o irmão estava perdido desde sempre, admitiria a impotência. E a impotência dilacera. Muito melhor a culpa.
Portanto, não teria filhos. Antes o prazer doentio de nunca saber a verdade. Poder dizer: se eu tivesse sido mãe, minha vida teria sentido, mas não fui, me sinto culpada. Porque é melhor do que dizer: meu filho não me salvou. Ele nunca poderia ter me salvado. Porque eu já estava condenada na gênese.